Agricultura
Orgânica - Conceituação em Agroecologia
1 - ELEMENTOS INTEGRANTES DA NATUREZA
O Planeta Terra existe há bilhões de anos e inicialmente era formado
por rochas e água. A vida surgiu há 2 bilhões de anos. O homem
apareceu há 35.000 mil anos e começou a fazer agricultura a cerca
de 10.000 anos. Atualmente encontramos os seguintes elementos
compondo a natureza:
- inorgânicos - são os elementos e substâncias minerais
sem vida, os quais estão totalmente sujeitos às leis da matéria,
como por exemplo, à lei da gravidade - as pedras não pulam e
a água sempre corre para baixo;
- orgânicos - são os seres com vida: plantas, animais,
seres humanos e microorganismos. Produzem substâncias orgânicas
e estão sujeitos às leis que regem os processos biológicos.
- as plantas - são fixas ao solo e são os únicos seres
capazes de absorver a energia do sol para produzir o seu próprio
alimento.
- os animais - possuem autonomia de movimento e através
dele vão em busca de alimentos. Suas ações são comandadas pelo
instinto e estão voltadas para sua sobrevivência mas, ao mesmo
tempo, elas desempenham uma função importante no funcionamento
da natureza - a abelha que visita uma flor em busca de néctar
ou pólen para a sua alimentação está ao mesmo tempo polinizando
essa flor e possibilitando a frutificação.
- os seres humanos - são os únicos seres que além de
autonomia de movimento também têm autonomia de ação. Nós temos
consciência de nós mesmos, temos razão, inteligência e livre
arbítrio, isto é, podemos escolher as nossas ações.
- os microorganismos - são seres vivos muito pequenos
que não podemos perceber a olho nu, mas eles estão no ar, no
solo, na água, desempenhando tarefas importantes, principalmente
como organismos decompositores.
Desde que a vida apareceu no nosso planeta, um processo evolutivo
muito lento levou ao aparecimento de milhares de espécies de seres
vivos, cada uma muito bem adaptada às condições do seu ambiente,
interligadas umas às outras, em perfeito equilíbrio e harmonia.
Os seres humanos também viveram em equilíbrio com a natureza por
milhares de anos. Nos últimos séculos, entretanto, com o desenvolvimento
da ciência e da tecnologia, passamos a nos sentir donos de tudo
que a natureza oferece. Sem nenhuma preocupação com o seu funcionamento
passamos a explorar seus recursos naturais, espalhando a destruição
e a poluição por toda parte. Hoje já sabemos que somos apenas
um fio na teia da VIDA e que tudo está interligado. Qualquer alteração
que provocarmos se refletirá no funcionamento geral da natureza,
muitas vezes de formas imprevisíveis.
2 - ELEMENTOS ESSENCIAIS À VIDA
Todos os seres vivos nascem, crescem, reproduzem, envelhecem e
morrem. A morte é a coisa mais certa da vida. Tudo que nasce um
dia vai morrer mas, a VIDA está sempre se renovando.
Para que a vida aconteça é necessário que existam: ar, água, alimento,
luz e calor. O sol nos fornece luz e calor gratuitamente. As plantas
são as produtoras de alimento e elas precisam do solo para se
desenvolverem. Portanto, ar, água e solo são os recursos naturais
renováveis essenciais à VIDA e nós precisamos recuperá-los e conservá-los.
Nós, seres humanos, temos ainda a vida moral e precisamos cuidar
do desenvolvimento das virtudes, principalmente do amor, pois
nós cuidamos daquilo que amamos. Nós temos três aspectos: o pensamento,
o sentimento e a ação, ou seja, o que pensamos, precisa passar
pela aprovação do que sentimos antes de se transformar em ação.
3 - OS CICLOS DA NATUREZA E O FLUXO DE ENERGIA
Na natureza tudo está em movimento, em constante transformação
e tudo funciona em ciclos. O sol é a fonte de energia que mantém
em funcionamento tanto a vida como os ciclos.
O fluxo de energia nos seres vivos acontece assim: as plantas
absorvem a luz do sol e produzem alimento para seu próprio desenvolvimento
e para os animais que se alimentam delas - os consumidores primários.
Estes usam uma parte da energia do alimento para seu próprio desenvolvimento
e transferem outra parte para os consumidores secundários e assim
por diante, formando um fluxo de energia dentro da cadeia alimentar.
É interessante observar que o número de indivíduos de cada população
diminui a medida que a espécie se distancia da base da pirâmide
alimentar, pois ela depende do nível inferior para sobreviver.
Vejamos agora o funcionamento de alguns ciclos:
- Ciclo do oxigênio e do gás carbônico - todos os seres
vivos respiram vinte e quatro horas por dia e, nesse processo,
ocorre a absorção de oxigênio do ar e a devolução de gás carbônico.
O oxigênio nunca acaba porque as plantas, além da respiração,
fazem também a fotossíntese, que é absorção do gás carbônico
e devolução do oxigênio para o ar. É através da fotossíntese
que as plantas produzem matéria orgânica, usando a luz do sol
para juntar o gás carbônico que retiram do ar com os minerais
e a água que retiram do sol. A matéria orgânica constitui o
alimento para as próprias plantas e para os animais - são as
vitaminas, proteínas, óleos, carboidratos, etc. O oxigênio e
o gás carbônico nunca acabam porque estão sendo constantemente
renovados na atmosfera através da respiração e da fotossíntese.
- Ciclo da água - o sol aquece a superfície do planeta
e promove a evaporação da água líquida presente nos solos, rios,
lagos e mares. As plantas e os animais também perdem água através
da transpiração. O vapor esfria à medida que sobe na atmosfera
até que ocorre a condensação e a formação das nuvens, com gotículas
de água. As gotículas se juntam e formam gotas pesadas que caem
sob a forma de chuva. A água da chuva pode seguir dois caminhos:
penetrar no solo, permitindo o desenvolvimento das plantas e
alimentando o lençol freático que por sua vez alimenta as nascentes,
ou escorrer por cima do solo provocando erosão, enchentes e
assoreamento dos rios e represas.
- Ciclo da matéria orgânica - as plantas produzem matéria
orgânica e são consumidas como alimento pelos consumidores primários.
Estes são alimentos para os consumidores secundários, e assim
por diante na cadeia alimentar. Todos os seres vivos produzem
resíduos sólidos e/ou líquidos enquanto vivem. Os organismos
decompositores aproveitam a energia desses resíduos e dos seres
mortos através da sua decomposição, devolvendo para o ambiente
os minerais, a água e o gás carbônico, que novas plantas irão
utilizar para fabricar mais matéria orgânica.
4 - CONCEITO DE SUSTENTABILIDADE
Diz-se que um processo ou atividade é sustentável quando tem a
capacidade de se manter através do tempo. Este é o conceito de
sustentabilidade adotado pela agricultura ecológica.
Pelo que acabamos de verificar, a natureza funciona em ciclos
que garantem a sustentabilidade de todos os processos necessários
à manutenção da VIDA. Apenas nos últimos séculos, o Homem passou
a provocar alterações nos equilíbrios desenvolvidos durante toda
a evolução do planeta, colocando em risco a sobrevivência de muitas
espécies, inclusive sobrevivência da espécie humana.
5 - DESENVOLVIMENTO DA AGRICULTURA QUÍMICA
Na antigüidade, a fome existia em virtude da escassez de alimentos.
A primeira "Revolução Agrícola" aconteceu ao redor de 1800 e associou
a criação de animais à agricultura, trazendo um grande aumento
da produção devido ao uso dos excrementos dos animais para adubação
das lavouras e a rotação de plantas forrageiras com os campos
cultivados. A segunda "Revolução Agrícola" se iniciou com a descoberta
dos adubos químicos, em fins do século passado. Trouxe a ilusão
de que o problema da nutrição das plantas estava resolvido. As
práticas do uso dos estercos animais, da rotação e do pousio foram
abandonadas. O desenvolvimento da motomecanização e o melhoramento
genético das sementes propiciou a instalação de grandes monoculturas.
Estas colaboraram para o esgotamento dos solos e para a migração
dos trabalhadores rurais para as cidades resultando em sérios
problemas sociais: desemprego, habitação, educação, saúde; e problemas
ambientais: abastecimento de água, saneamento, geração de lixo,
etc.
A adubação com os macronutrientes - N, P, K - sem preocupação
com a reposição de matéria orgânica, logo mostrou problemas de
deficiências de micronutrientes ao mesmo tempo em que as pragas
e doenças se tornaram mais sérias. Surgiram então os agrotóxicos
para controlá-las, acarretando um desequilíbrio ainda maior no
funcionamento da natureza, além de intoxicar os trabalhadores
e contaminar os alimentos, o solo e a água.
A segunda "Revolução Agrícola", foi efetivamente introduzida nos
países subdesenvolvidos através do pacote tecnológico conhecido
como "Revolução Verde". Ocorreu no Brasil, principalmente, nas
décadas de 60 e 70. Caracteriza-se pelo uso intensivo de insumos
químicos: adubos solúveis e agrotóxicos, sementes melhoradas para
responderem a esses insumos e alto grau de mecanização, em todas
as etapas da produção. Ela requer alto investimento de capital
e alto uso de energia.
A Revolução Verde trouxe um aumento expressivo na produção agrícola,
mas aos poucos ficaram evidentes os problemas que ela também trouxe
consigo: compactação dos solos, erosão, perda da fertilidade dos
solos, perda da biodiversidade, contaminação dos alimentos, intoxicações
crônicas e agudas dos trabalhadores rurais, contaminação dos solos
e das águas por nitratos e agrotóxicos, aparecimento de pragas
resistentes aos agrotóxicos, aparecimento de novas pragas, alimentos
sem sabor e sem durabilidade.
Coloca-se então a pergunta: A agricultura química é sustentável?
6 - MOVIMENTOS CONTRÁRIOS
Surgiram muitos movimentos contrários à agricultura química, assim
que os primeiros problemas começaram a aparecer. Os principais
são: Agricultura orgânica - se desenvolveu através dos
trabalhos de compostagem e adubação orgânica realizados por Howard
na Índia, entre 1925 e 1930, e foram divulgados por Lady Balfour
na Inglaterra e Rodale nos Estados Unidos. No Brasil, a Associação
de Agricultura Orgânica foi criada em 1989.
Agricultura biodinâmica - surgiu na Europa através das
orientações do filósofo austríaco Rudolf Steiner, por volta de
1924.
Agricultura natural - surgiu no Japão, com as orientações
do mestre Mokiti Okada, motivada pelo princípio da purificação
do espírito pela arte e do corpo pelo alimento.
7 - CRESCIMENTO DA POPULAÇÃO HUMANA
Há 8 mil anos atrás a população do planeta era cerca de 5 milhões
de habitantes. Em 1850 chegou a 1 bilhão e, desde então, vem crescendo
muito rapidamente: 2 bilhões em 1930, 3,5 bilhões em 1975 sendo
que, atualmente, está ao redor de 5,5 bilhões de habitantes.
Os seres humanos não possuem predadores e com o controle das doenças
as pessoas estão vivendo mais tempo. A guerra, a violência gerada
pelas desigualdades sociais, os desastres naturais e os acidentes
em geral são os fatores que atualmente provocam a morte prematura,
antes do envelhecimento natural.
O grande desafio da época atual é como promover o desenvolvimento
sustentado para uma população crescente, o que implica em aumento
da produção de alimentos sem destruir os recursos naturais que
permitem a manutenção das condições de VIDA no nosso Planeta Terra.
8 - ECOLOGIA E AGROECOLOGIA
Como já foi visto, para cada condição de solo e clima se desenvolveu
um grupo de organismos vivos que estão harmoniosamente adaptados
e interligados através de vários processos - são os ecossistemas.
Ecologia é a ciência que estuda o funcionamento desses sistemas.
São exemplos de ecossistemas naturais brasileiros: a Mata Atlântica,
a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal, a Caatinga.
Agroecologia nada mais é do que o estudo dos sistemas de produção
de alimentos, buscando inserir no processo produtivo os processos
que ocorrem naturalmente nos ecossistemas locais. É como remar
a favor da correnteza, deixando a natureza agir e trabalhar para
nós. Para isso, precisamos entender os processos que acontecem
nos ecossistemas.
9 - AMBIENTES NATURAIS OU EM POUSIO
Quando uma terra está esgotada, cansada, nem responde mais à adubação,
nós podemos deixá-la em pousio para que a natureza promova sua
recuperação.
Vamos verificar o que acontece. Inicialmente se instalam as plantas
colonizadoras que estabelecem uma cobertura viva sobre o solo.
São muitas espécies diferentes. Cada uma com um tipo de sistema
radicular que lhes permite explorar os nutrientes do solo de formas
diferentes. A cobertura do solo oferece proteção para o impacto
das gotas de chuva que poderiam provocar a desagregação e o conseqüente
arrastamento das partículas do solo pelas enxurradas. Ela evita,
portanto, a erosão e o assoreamento dos rios e represas. Aos poucos
o solo vai ficando recoberto com matéria orgânica morta, vão aparecendo
arbustos e árvores pioneiras com sistemas radiculares mais profundos
que bombeiam os nutrientes lixiviados novamente para a superfície.
O solo protegido dos raios diretos do sol mantém a temperatura
mais constante e conserva a umidade. Estas condições são favoráveis
ao desenvolvimento de intensa atividade biológica que resulta
na liberação de macro e micronutrientes, na formação de húmus
e na estruturação do solo. Ao atingir este estágio o solo terá
novamente recuperado a fertilidade através dos processos naturais
que foram restabelecidos.
10 - O SOLO COMO UM SISTEMA VIVO
É importante entender o solo em seus três aspectos: físico, químico
e biológico, para que possamos manejá-lo de forma que ele possa
oferecer tudo que as plantas necessitam para um bom desenvolvimento:
ar, água, nutrientes, nas quantidades e nas épocas certas.
Os solos se formaram a partir de rochas que sofreram a ação da
temperatura, da chuva, dos ventos, e se dividiram em partes menores.
O desenvolvimento de microorganismos e plantas inferiores - bactérias,
fungos, algas, liquens, musgos e samambaias, promoveram outros
desdobramentos, tanto em relação ao tamanho como em relação à
composição química. As plantas superiores começaram a se instalar
assim que se formou uma fina camada de solo - inicialmente as
ervas, depois os arbustos, as arvoretas, até as árvores de grande
porte. Esse processo levou milhares de anos e as transformações
continuam acontecendo.
Nas condições tropicais e subtropicais, dependendo também do relevo,
as transformações da rocha mãe ocorreram até a profundidade superiores
a um metro, resultando em solos profundos.
Estudando um solo já formado nós encontramos quatro componentes:
água, ar, minerais e matéria orgânica, em diferentes proporções.
A parte mineral do solo pode ser de três tipos: areia - partículas
mais grosseiras; silte - partículas intermediárias; e argila -
partículas mais finas, com carga elétrica negativa, que atraem
os nutrientes com carga elétrica positiva como o cálcio, potássio,
sódio, etc. Os espaços entre as partículas minerais podem ser
ocupados por ar ou água. Um solo com menos de 20% de argila é
considerado arenoso; entre 20% e 40% é areno-argiloso e com mais
de 40% de argila é argiloso. Estes são os tipos de textura do
solo que nós não podemos modificar. A textura de um solo nos revela
muitas coisas sobre suas propriedades físicas e químicas.
- As propriedades físicas dizem respeito à capacidade de absorver
e reter água, de circular o ar e à facilidade que oferece para
a penetração das raízes das plantas.
- As propriedades químicas dizem respeito à capacidade de reter
e fornecer nutrientes para as raízes e possibilitar reações
químicas entre os seus componentes.
Vejamos como funcionam os dois tipos extremos de textura:
- solos arenosos - são leves, soltos. A água, o ar e as raízes
penetram com facilidade, porém, a água se movimenta muito rapidamente,
tanto para as camadas mais profundas, até atingir o lençol freático,
como para cima, evaporando para o ar. Como a areia não tem a
capacidade da argila de segurar os nutrientes, estes são levados
para as camadas mais profundas, resultando em solos pobres em
nutrientes nas camadas superiores.
- solos argilosos - são mais pesados. A água e o ar circulam
com dificuldade e oferecem maior resistência para a penetração
das raízes. Como a argila é capaz de armazenar nutrientes, são
solos mais ricos nas camadas superiores.
Vale aqui uma observação: o tipo de argila que se forma
nas condições de clima tropical e subtropical tem uma capacidade
bem menor de reter nutrientes quando comparada com a argila que
se forma em clima temperado. Isto quer dizer que os nossos solos
são mais pobres que os solos das regiões temperadas mas, em compensação,
são mais profundos e oferecem um volume muito maior para as raízes
explorarem, desde que não haja nenhum impedimento para seu desenvolvimento.
Este impedimento ocorre quando há formação de camadas adensadas,
freqüentes em solos altamente mecanizados, o famoso "pé-de-arado".
Como já foi visto, não podemos modificar a textura de um solo.
Existe, entretanto, um outro fator muito mais importante para
a fertilidade que é a estrutura do solo, e esta nós podemos construir,
manter ou destruir.
Um solo é estruturado quando as partículas de areia, silte e argila
se ligam formando blocos maiores, os grumos ou agregados. Estes
deixam entre si espaços maiores, os macroporos, que são de imensa
importância para a circulação do ar e da água.
Os grumos se formam pela ação cimentante de várias substâncias
entre as quais destacamos o húmus que é um dos produtos da decomposição
da matéria orgânica.
A matéria orgânica presente nos solos é formada por restos de
animais e vegetais em diferentes fases de decomposição. Esta é
realizada pelos organismos decompositores: micro e mesovida do
solo. São fungos, bactérias, minhocas, cupins, etc. A matéria
orgânica morta é, portanto, o alimento da vida do solo. Como ela
está em constante decomposição nós precisamos também repô-la com
freqüência.
Durante a decomposição são liberados nutrientes, água e gás carbônico
e são formadas outras substâncias orgânicas entre as quais o húmus,
que além de funcionar como cimento na formação dos agregados de
areia - silte - argila, tem também a mesma capacidade da argila
de atrair e reter nutrientes, só que em grau muito mais elevado.
Percebemos assim que o húmus melhora não apenas as propriedades
físicas do solo através da sua estruturação, mas também as suas
propriedades químicas, tanto nos solos arenosos como nos argilosos.
Nas condições de clima tropical e subtropical, entretanto, o húmus
não é estável. Ele não se acumula, como nos solos de clima temperado
mas, pelo contrário, continua sendo decomposto em nutrientes:
água e gás carbônico, através da atividade das bactérias do solo,
o que leva à perda da estrutura dos agregados e ao comprometimento
da fertilidade, diretamente ligada à essa estrutura.
As plantas cultivadas em solos adubados com matéria orgânica são
mais resistentes às pragas e às doenças por dois motivos principais:
- estão nutricionalmente equilibradas porque recebem todos os
nutrientes que necessitam na medida certa;
- a atividade biológica produz diversas outras substâncias,
inclusive antibióticos, que protegem as plantas dos microorganismos
que causam doenças.
Por tudo que acabamos de ver, podemos concluir que a baixa fertilidade
dos solos tropicais é compensada pela sua maior profundidade e
que eles podem sustentar boas colheitas desde que a estrutura
grumosa seja mantida. Para que isso aconteça, é essencial a reposição
constante de matéria orgânica morta para alimentar a atividade
biológica que produz húmus, o que pode ser feito de várias formas
entre as quais, adubação verde e adição de composto.
A agricultura em clima tropical é muito diferente da agricultura
em clima temperado e, portanto, não podemos simplesmente importar
as tecnologias usadas nesses climas, sem nenhuma adaptação.
Precisamos adequar e desenvolver tecnologias para as nossas condições,
que não acelerem ainda mais a decomposição da matéria orgânica
dos nossos solos, nem eliminem a proteção que a cobertura vegetal
fornece a eles contra os raios quentes do sol e o impacto das
chuvas.
11 - BIODIVERSIDADE - PRAGAS E DOENÇAS
Biodiversidade nada mais é do que a manifestação da vida sob diferentes
formas. Ao estudarmos a maioria dos ecossistemas naturais brasileiros,
nós podemos observar a grande quantidade de espécies vegetais
e animais que os integram, o que significa uma alta biodiversidade
nesses sistemas.
Um dos princípios da Ecologia é que a estabilidade de um sistema,
isto é, a sua capacidade de recuperação quando exposto à alguma
alteração, está diretamente ligada à biodiversidade. Isto porque
muitos seres executam as mesmas funções e substituem uns aos outros
no funcionamento geral do sistema. As populações das diversas
espécies controlam umas às outras, sem que nenhuma delas possa
se desenvolver demasiadamente.
No momento em que introduzimos uma monocultura em larga escala,
nós oferecemos uma grande quantidade de alimento para uma determinada
espécie cuja população aumenta rapidamente, e ela se transforma
em praga. Seus inimigos naturais demorarão um pouco mais para
aumentarem sua população e poderem controlá-la. Nesse meio tempo
entram os agrotóxicos causando um desequilíbrio ainda maior e
provocando o aparecimento de indivíduos resistentes ao agrotóxico
usado. Está armada a confusão. A adubação com N-P-K solúveis provoca
desequilíbrios no solo e deficiências de micronutrientes, as plantas
com nutrição desequilibrada são mais sensíveis às pragas e às
doenças e o uso de agrotóxicos se torna cada vez mais intenso,
com aplicações mais constantes e venenos mais potentes. O cultivo
da gleba com a mesma cultura por anos seguidos só agravará a situação.
Para reverter esse quadro é imprescindível montar sistemas de
produção que promovam a biodiversidade tanto das plantas como
dos animais, tanto acima como abaixo do solo.
Isso pode ser conseguido através de programas de rotação de cultura,
de cultivos consorciados, de cultivo em faixas, em aleias, incluindo
espécies de leguminosas, como adubo verde ou não, pois elas são
capazes de fixar o nitrogênio da atmosfera e prover as necessidades
desse nutriente nas quantidades adequadas.
Estamos buscando alcançar uma situação de equilíbrio, onde as
pragas e doenças não serão exterminadas e sim mantidas em níveis
que causem danos econômicos aceitáveis. Isto é obtido com a ajuda
dos defensivos alternativos, que serão estudados em um dos módulos
seguintes.
12 - TRABALHO - CAPITAL E ENERGIA
A instalação das grandes monoculturas mecanizadas envolve o uso
intensivo de capital e energia, sob a forma de máquinas, sementes
melhoradas, adubos químicos e agrotóxicos, ao mesmo tempo em que
diminuem drasticamente a necessidade de mão-de-obra e a biodiversidade.
Os pequenos e médios produtores que desejem produzir de acordo
com as leis da natureza irão usar muito mais mão-de-obra e muito
menos capital e energia.
Para que alcancem resultados financeiros positivos com a produção
agrícola, é de suma importância que estes produtores se organizem
e busquem assessoria para produção, certificação, processamento
e comercialização.
A organização é um elemento fundamental para garantir que os produtores
que hoje compreendem a importância de produzir obedecendo as leis
da natureza se fortaleçam para ir promovendo uma mudança gradual
no comportamento dos demais e para que possam construir e fortalecer
o desenvolvimento do agronegócio fundado na prática da agricultura
ecológica.
13 - BIBLIOGRAFIA Ehlers, Eduardo. Agricultura
Sustentável: Origens e Perspectivas de um novo Paradigma. São
Paulo. Livros da Terra.
Primavesi, Ana Maria. Manejo Ecológico de Pragas e Doenças.
São Paulo. Nobel.
|
A Sociedade Nacional de Agricultura recebeu autorização
para publicar as informações contidas nesta página.
O artigo corresponde a um apoio para aqueles que participaram
dos cursos realizados pela CTAE - Comissão Técnica de Agricultura
Ecológica da Secretaria de Agricultura e Abastecimento,
Curso Regional em Agricultura Ecológica.
Fonte: Instituto Economía Agrícola, São Paulo
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